O senhor está há muitos anos à frente do Instituto Confúcio na Unesp, criado por meio de um convênio entre a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e a Universidade de Hubei, com o apoio da Fundação de Educação Internacional Chinesa. Poderia contar um pouco da sua trajetória e o que o motivou a dedicar-se ao ensino da língua chinesa no Brasil?
Eu sou professor da Unesp há 20 anos. Leciono disciplinas de economia para os alunos do curso de relações internacionais no Campus de Marília. Também trabalhei no governo federal, no Ministério da Fazenda (2003), como assessor do ministro da Fazenda; na Presidência da República (2004-2005), como secretário-executivo do Ministério de Coordenação Política e Relações Institucionais; e no Ministério do Esporte (2012-2014), como chefe da assessoria do gabinete do ministro. Logo que cheguei à Unesp, em 2006, propus ao reitor à época, professor Marcos Macari, a criação do Instituto Confúcio na Unesp. O que me motivou à época a tomar essa iniciativa foi, além do fato de já ter relações com a China, em decorrência de ter visitado o país por ocasião da primeira visita do presidente Lula à China, em 2004, foi a percepção que eu tinha, já àquela época, da importância que a China teria para o mundo e o Brasil no século 21. Formar uma nova geração de acadêmicos e profissionais que conhecessem melhor a China, inclusive sua língua e cultura, sempre me pareceu uma necessidade estratégica para o nosso país.
A unidade do Instituto Confúcio da Unesp foi a primeira do Brasil. Hoje, qual é o mapa de presença do Instituto no país e como funciona a articulação entre as diferentes unidades?
Hoje, existem 14 Institutos Confúcio funcionando no Brasil, todos em parceria com importantes universidades brasileiras e chinesas, em diferentes estados da Federação. Atualmente, temos Institutos Confúcio funcionando em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Brasília, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Pernambuco, Ceará, Pará, Maranhão e Amazonas. A articulação entre eles se dá por meio da Rede Brasileira de Institutos Confúcio, criada no ano passado, cuja presidência, no período 2025/2026, está sendo exercida pelo Instituto Confúcio na Unesp.
Quantas pessoas já estudaram no Instituto Confúcio na Unesp desde a sua fundação?
Em nosso Instituto já registramos mais de 40 mil matriculados ao longo de todos os anos.
De que forma o Instituto Confúcio equilibra o ensino da língua, do básico ao avançado, com aspectos culturais, eventos e intercâmbios que promovem uma compreensão mais ampla da China?
Língua e cultura são duas faces da mesma moeda. Não há cultura sem comunicação e, portanto, sem a linguagem; a própria língua é a expressão máxima de qualquer cultura. Sem a língua, não existiriam a literatura, a poesia, o cinema, a publicidade e, obviamente, nem o Estado nacional, nem leis e instituições. Não há, portanto, como ensinar uma língua desconsiderando seu contexto cultural, tampouco compreender profundamente a cultura sem o conhecimento do principal veículo pelo qual ela se manifesta: a língua. Por essa razão, desde os níveis iniciais até os mais avançados, sempre procuramos situar o ensino da língua no contexto cultural mais amplo em que ela se insere.
Como você vê a importância do estudo do mandarim no atual cenário de negócios global, especialmente para profissionais de comunicação e inovação que atuam com mercados asiáticos?
Dada a crescente importância da China no mundo atual, compreender a língua chinesa deixou de ser, há muito tempo, mera curiosidade intelectual para se tornar uma necessidade estratégica de qualquer país. Como será possível para qualquer país do mundo, inclusive o Brasil, se relacionar com a segunda maior potência econômica do mundo, maior exportador mundial de manufaturas, maior importador mundial de commodities agrícolas e minerais, líder mundial na maioria das tecnologias relacionadas à Quarta Revolução Industrial, inclusive inteligência artificial, sem dispor de uma burocracia, de um corpo de líderes empresariais, jornalistas, comunicadores, pesquisadores e acadêmicos que tenham conhecimento da língua chinesa? No plano individual, qualquer profissional que deseje ter uma trajetória de sucesso em sua carreira deveria considerar seriamente a possibilidade de aprender a língua chinesa.
Quais cursos ou trilhas de aprendizado oferecidos pelo Confúcio são mais indicados para quem precisa desenvolver rapidamente habilidades de fala e conversação em mandarim?
Nós oferecemos basicamente dois tipos de cursos. O curso normal de língua chinesa, que é organizado em dez módulos semestrais, contemplo os níveis básico, intermediário e avançado e o curso preparatório do exame de proficiência HSK/HSKK, que é exigido pelas universidades chinesas para quem deseja estudar no país. Tanto um quanto outro são oferecidos nas modalidades presencial e online.
O Instituto oferece cursos voltados especificamente para negócios ou áreas profissionais (por exemplo, negócios internacionais, mídia ou marketing)? Se sim, poderia detalhar esses programas?
Não. Todos os nossos cursos são voltados ao aprendizado geral da língua. Cursos específicos para negócios ou outras áreas profissionais, como finanças, direito, medicina etc., só fazem sentido para alunos que já tenham algum domínio básico da língua e desejem especializar-se.
Dentro do portfólio de cursos, como são organizados os níveis (básico, intermediário e avançado) e qual o perfil de aluno que mais se beneficia de cada etapa?
O nível básico é organizado em três módulos semestrais e, da mesma forma, o intermediário. Já o nível avançado é organizado em quatro módulos semestrais, perfazendo, ao todo, dez semestres ou cinco anos. Obviamente, nem todos os alunos que ingressam no básico I conseguem prosperar até o avançado IV. Isso depende muito da disponibilidade de tempo do aluno, do interesse em aprofundar o conhecimento da língua à medida que vai progredindo no aprendizado e, sobretudo, do nível de conhecimento que o aluno considere necessário para atingir seus objetivos. Cada módulo se propõe a ensinar a conversação sobre tópicos específicos, bem como a leitura e a gramática relacionadas a eles e, sobretudo, o aprendizado de um determinado número de caracteres chineses, que pode variar de módulo para módulo. Para um bom desempenho no exame de proficiência HSK1, o ideal é que o aluno domine cerca de 300 caracteres.
O público que procura o Instituto Confúcio tem se diversificado com o tempo? Quem são hoje os principais perfis de alunos e quais os objetivos que eles têm?
Sim, nosso público é bastante diverso. Como oferecemos cursos tanto para os alunos da universidade quanto da comunidade em geral, ele é composto por jovens universitários interessados em estudar na China, realizar pesquisas e trabalhos acadêmicos sobre a China ou apenas melhorar seu currículo, tendo em vista a melhora de suas condições de empregabilidade. Além disso, somos procurados por profissionais que já atuam em empresas ou negócios próprios, cujos objetivos estão relacionados com a sua atividade profissional, seja de fazer negócios com empresas chinesas, seja porque já trabalham em empresas chinesas ou desejam trabalhar nelas. Há também um grupo relevante de pessoas que desejam aprender a língua chinesa visando apenas ao próprio aperfeiçoamento intelectual ou por se interessarem por aspectos específicos da cultura chinesa, como literatura, poesia, cinema, artes marciais etc.
Como se deu a evolução do interesse pelo mandarim no Brasil nos últimos anos? Você percebe crescimentos impulsionados por demandas do mercado internacional e de inovação?
Sem dúvida. À medida que o papel da China no mundo se torna mais relevante, o número de pessoas interessadas em aprender a língua chinesa aumenta na mesma proporção. Imagino que, em um futuro não muito distante, o ensino de chinês passará a fazer parte do currículo regular das escolas de ensino secundário.
Quais são os principais desafios que alunos encontram ao estudar mandarim e como o Instituto Confúcio os ajuda a superá-los?
Os desafios do aprendizado da língua chinesa são os mesmos que os de qualquer língua. No caso da língua chinesa, há alguns fatores que facilitam e outros que dificultam. A facilidade decorre do fato de a estrutura gramatical da língua chinesa ser extremamente simples. Não há conjugação de verbos, nem variações de gênero, número ou grau das palavras. Nesse sentido, é mais fácil para um brasileiro aprender chinês do que para um chinês aprender português. A maior dificuldade vem do fato de a língua chinesa ter raízes pictográficas, em que muitos caracteres começaram como desenhos de objetos, mas evoluíram para um sistema morfosilábico, em que os símbolos representam sílabas com significado, sendo que a maioria dos caracteres hoje combina elementos fonéticos e semânticos, não sendo apenas imagens. É a única língua pictográfica moderna. Nesse caso, o aluno, em vez de precisar apenas aprender um alfabeto para escrever as palavras, precisa decorar o significado de algumas centenas de caracteres para ler ou escrever um texto. No mais, o que se exige para aprender chinês é o que se exige para aprender qualquer coisa nova: determinação, esforço e dedicação.
O Instituto Confúcio também organiza programas de intercâmbio ou experiências intensivas na China. Que oportunidades atuais vocês oferecem e qual o impacto desses programas para a carreira dos alunos?
Além dos cursos regulares, o Instituto Confúcio na Unesp oferece bolsas de estudo para alunos interessados em aperfeiçoar o aprendizado de língua chinesa na própria China, na nossa universidade parceira, a Universidade de Hubei. Nossos alunos podem passar períodos de quatro semanas, um semestre ou um ano na China, dependendo da modalidade de bolsa de estudos à qual se candidatam. O processo de seleção se dá, basicamente, pelo exame de proficiência HSK/KSKK. Como as bolsas são oferecidas pela matriz do Instituto Confúcio na China, há também alguns pré-requisitos, sobretudo relativos à idade. Após passar algum tempo na China, o aprendizado, obviamente, dá um grande salto de qualidade.
Por fim, que conselhos o senhor daria a comunicadores, publicitários e inovadores brasileiros que desejam se posicionar competitivamente no eixo Brasil-China, seja por meio do idioma ou da cultura?
Eu diria que o conhecimento da língua representa um enorme diferencial para quem deseja se inserir competitivamente nesse eixo. Abundam exemplos de pessoas que, por dominarem apenas os elementos básicos da língua chinesa, conseguiram excelentes empregos nas centenas de empresas chinesas que estão se instalando no Brasil. Diria também que o conhecimento da cultura é um fator tão ou mais essencial do que o da própria língua, pois, se os problemas decorrentes da falta de conhecimento da língua podem, de alguma forma, ser superados pela tecnologia, não há nada que possa substituir a falta de conhecimento da cultura. E a prática demonstra que a maior parte dos negócios que fracassam o faz não pela inviabilidade econômica, mas pela falta de conhecimento dos códigos culturais.













