Vocês acabaram de participar da Feira do Livro da USP (Universidade de São Paulo), que é um dos grandes eventos do ano para o mercado editorial. Que balanço, em geral, você faz da edição deste ano?
A Feira da USP é anual e está na sua 27ª edição. Ela nasceu como um evento voltado ao público acadêmico, mas já faz muitos anos que se transformou em um dos principais eventos do mercado editorial de São Paulo. É frequentada por um público muito mais amplo do que a comunidade universitária e, consequentemente, atrai editoras de todos os nichos, desde as que publicam livros infantis até as que se dedicam a temas religiosos. Na edição deste ano, essa diversidade de público ficou bastante marcada e, assim como vem ocorrendo com as Bienais do Livro, há uma predominância de jovens em busca de livros técnicos e teóricos que são indicados nas bibliografias dos cursos que eles estudam, mas principalmente de gente buscando literatura de ficção. Então, para editoras com este tipo de publicação, as vendas certamente foram bastante positivas. Estive na Feira como livreiro de duas editoras: a Anita Garibaldi e a Contraponto, com muitos títulos voltados para a área política e, nas duas bancas, as vendas deste ano foram melhores do que as do ano passado.
Em termos de vendas e interesse do público, como se destacou a procura por livros relacionados à China durante a feira?
Não tenho como saber como foi esta procura nas demais editoras, mas nas duas que representei (Anita Garibaldi e Contraponto) o interesse e a curiosidade dos frequentadores pelo tema China ficou evidente. Na Contraponto, que tem no seu catálogo dois volumes da obra Governança da China, de Xi Jinping, e mais alguns títulos voltados ao tema da cultura e do pensamento chinês, a procura foi alta. Na Anita Garibaldi, nossos títulos sobre a China esgotaram, sinal também de alta procura. Na Boitempo, o livro de Elias Jabbour sobre a economia chinesa é um dos mais vendidos. E notei que em quase todas as bancadas onde havia livros sobre a China, os exemplares estavam em destaque.
Você poderia detalhar mais como esse interesse crescente pela China tem se refletido, na prática, na procura por livros relacionados ao país asiático?
O mercado editorial não é diferente de outros mercados, ele também funciona na lógica da oferta e da procura. Quando um tema começa a gerar demanda, logo aumenta a oferta de títulos sobre ele. Mas, ainda que a procura por livros sobre a China esteja crescendo, é pequena a oferta de publicações sobre o assunto e, sobretudo, é baixíssima a quantidade de livros disponíveis no mercado editorial brasileiro de autores chineses, sobretudo na área da filosofia e da literatura. Acredito que a procura crescente vai incentivar, no curto prazo, um aumento desta oferta, mas por enquanto ela ainda é muito baixa se comparada à de autores europeus, americanos e até mesmo do Oriente Médio. No ramo da literatura, sobretudo quando falamos de romances e poesia chinesa, a dificuldade de conseguir profissionais capacitados para traduzir do chinês para o português ainda é um obstáculo que talvez ajude a explicar a baixa oferta de títulos. Além disso, escrever sobre um assunto que requer elaboração teórica não é tão automático. O movimento começa nas universidades, com um significativo aumento de pesquisadores dedicados a estudar e elaborar teoricamente sobre a realidade chinesa, depois essas pesquisas acabam sendo publicadas em livros, especialmente por editoras mais progressistas, pois ainda há muito preconceito injustificado no mercado editorial com a China por ser um país governado pelo Partido Comunista. Na nossa editora, esse problema não existe.
Mesmo com políticas de subsídio para publicações institucionais, chamou a atenção desde a feira do ano passado o interesse de jovens pelos livros do presidente chinês, Xi Jinping. Há alguma base nessa percepção?
Acredito que há o fator “curiosidade” envolvido nesta procura. A China, sob a liderança do presidente Xi Jinping, nos últimos anos, vem disputando com os Estados Unidos o posto de maior potência mundial, em várias esferas: tecnológica, militar, econômica e diplomática. E isso, claro, desperta o interesse das pessoas em conhecer as estratégias e o pensamento por trás deste movimento de rápida ascensão. É claro que o fato de o livro ser subsidiado pelo governo chinês e oferecido por um preço muito acessível também ajuda a aumentar sua procura. Ainda que não tenha pretensões imperialistas, colonialistas ou hegemônicas, a China, como potência emergente, percebeu que o soft power é um instrumento importante para se fortalecer e se proteger num mundo cada vez mais globalizado. Os Estados Unidos fazem isso de forma sistemática há décadas. Acredito que subsidiar a produção de livros como este do Xi Jinping faz parte do soft power chinês.
Você, inclusive, chama a atenção para o caso de um autor específico…
Sim, nesta curiosidade dos jovens pelo tema China chamo a atenção para um caso especial de um autor brasileiro que é, em boa parte, responsável por isso: Elias Jabbour. Ele é um jovem acadêmico que começou a estudar o desenvolvimento chinês desde a graduação e tornou-se um especialista em economia chinesa. Publicamos, pela Anita Garibaldi, três livros dele e depois ele lançou mais um pela Boitempo. O Elias é um cara que não se limita ao ambiente acadêmico, ele sabe usar as redes sociais para “vender” suas ideias e divulgar seus livros. E isso fez ele ficar muito conhecido nas redes, virou um influenciador importante e, consequentemente, despertou o interesse de muitos jovens para o tema China. As redes sociais têm exercido um papel fundamental no marketing do mercado editorial. Boa parte dos livros que viraram best sellers nos últimos anos conseguiu isso graças a indicações e repercussão nas redes. Então autores e editoras que souberem usar as redes para disseminar suas publicações terão resultados muito mais interessantes do que aquelas que apostam apenas nos instrumentos tradicionais de divulgação de livros.
Ainda sobre os livros do presidente Xi Jinping, do ponto de vista editorial e cultural, qual é a relevância das obras e será que podem servir de alguma maneira como referência para nossas lideranças políticas?
Como eu disse, não só o público brasileiro, mas o mundo, está curioso em entender como a China conseguiu alcançar um grau tão elevado de desenvolvimento em tão pouco tempo. Nesse sentido, qualquer publicação que ajude a decifrar esse fenômeno desperta interesse e se torna relevante para o debate político e até mesmo para ajudar empresas e governos a replicar estratégias de sucesso. A China é um país governado pelo Partido Comunista e com forte presença do Estado no mercado. É óbvio que as estratégias de desenvolvimento do país são orientadas a partir de debates e resoluções do Comitê Central, então conhecer as ideias de quem lidera este processo é algo a ser buscado por lideranças de boa parte dos países em desenvolvimento. Já do ponto de vista cultural, a cultura chinesa é uma das mais exuberantes, complexas e ricas do mundo, mas ainda pouco disseminada fora da China. Acredito que no médio prazo o esforço de soft power chinês vai conseguir disseminar mais e melhor esta cultura para outros países.
A presença de títulos chineses no mercado editorial brasileiro também representa uma oportunidade cultural e comercial. Como avalia esse intercâmbio do ponto de vista dos negócios editoriais?
A China inventou o papel – e várias outras coisas que moldaram a civilização. Sua tradição e a excelência no desenvolvimento de técnicas de impressão, aliadas a um arrojado desenvolvimento tecnológico nesta área, fazem da China um dos principais fornecedores de serviços de impressão do mundo. Editoras americanas imprimem seus livros na China. Essa é uma faceta do intercâmbio que deve ser mais e melhor explorada. A outra é o intercâmbio propriamente editorial, com editoras chinesas publicando autores brasileiros e vice-versa. Como eu disse, há um obstáculo da tradução, ainda difícil, mas com o avanço da inteligência artificial, este obstáculo é cada vez menor. Os chineses começaram muito recentemente a buscar parcerias editoriais com o Brasil e percebo que estão empenhados em acelerar este processo. Acredito que nos próximos anos o mercado editorial brasileiro vai ter uma oferta bem maior de obras chinesas.
Vocês participam de alguma ação editorial na China, como produção de edições de livros nacionais para o chinês?
Nossa editora, através da Fundação Maurício Grabois, de quem somos parceiros editoriais, possui um convênio com o grupo editorial Xinhua-Chongqing que vai viabilizar a publicação de títulos nossos na China e de títulos da Chongqing Editorial no Brasil. Já no começo de 2026, devemos lançar o primeiro deles, um livro da série ‘Seis Perspectivas da Modernização Chinesa’.
Para editoras e livrarias, trabalhar com obras de origem chinesa exige algum tipo de adaptação específica em curadoria, comunicação e estratégia de vendas?
Divulgar literatura chinesa no Brasil é um desafio fascinante e cheio de oportunidades, mas ao mesmo tempo complexo. Durante décadas, a China foi um mercado fechado e pouco acessível. O preconceito e o boicote do mundo ocidental com um país asiático comunista dificultaram ainda mais o intercâmbio. A língua também atrapalha e, por questões de política interna e segurança, os chineses usam redes sociais próprias e as redes que usamos não estão acessíveis a eles. Em um mundo conectado via redes, isso dificulta ainda mais o intercâmbio cultural. Superar tudo isso exige estratégias específicas.
E quais são os principais desafios?
O primeiro desafio é conhecer e entender quais são os clássicos da literatura e da teoria/filosofia chinesa que poderiam cativar o leitor brasileiro. Algo que vá além de Sun Tzu ou Confucius, que já estão presentes por aqui há tempos. O leitor brasileiro tem mostrado interesse por narrativas contemporâneas: realismo mágico, ficção científica, dramas familiares e contos e lendas, mitologia e tradição cultural chinesa são temas com grande potencial de mercado, além, claro, como já falamos, obras mais políticas que ajudam a decifrar o projeto de desenvolvimento da China. Com o grande avanço tecnológico dos chineses, acredito que também há muito espaço e potencial para livros técnicos e manuais. Além do problema da tradução, sobre o qual já falamos, outro obstáculo relevante é a negociação de direitos autorais. Tentar fazer isso direto com os autores é muito difícil. O caminho mais prático é tratar diretamente com os grupos editoriais que detêm estes direitos de publicação. Também é importante investir em paratextos de qualidade: prefácios, posfácios e notas do tradutor são cruciais para apresentar e contextualizar estas obras para o público brasileiro. Eles guiam o leitor, explicam referências culturais e legitimam a obra, sobretudo quando escritos por autores e especialistas brasileiros renomados. A tradução é complicada. Por isso, buscar obras que já estejam traduzidas para o inglês ou espanhol é um atalho que pode ser compensador. Do ponto de vista gráfico, também acredito que já passou da hora de fugir de clichês como dragões e templos chineses e investir em capas com apelo universal e contemporâneo, que dialoguem com a estética do mercado brasileiro. E, como em todo livro, são essenciais para a divulgação os lançamentos em eventos literários grandes como Bienais e feiras. Dificilmente consegue-se trazer para estes eventos o autor chinês, mas lives e palestras com o tradutor (herói invisível da obra) e o editor brasileiro são uma boa alternativa.

