O Brasil como prioridade para o streaming asiático

Se antes as novelas brasileiras ultrapassavam barreiras culturais e conquistavam a Ásia, agora é o entretenimento asiático que ganha popularidade e força entre o público brasileiro. Com quase 11 milhões de usuários registrados no país – de um total de cerca de 100 milhões no mundo –, a plataforma de streaming Rakuten Viki tem o Brasil como um de seus três maiores mercados. Nesta entrevista, a vicepresidente de marketing da empresa, Karen Paek, detalha como a alta interação e as particularidades dos fãs brasileiros tornam o país uma prioridade em suas estratégias.

KAREN PAEK VP de marketing do Rakuten Viki (Foto: Divulgação)

Vocês afirmam ter quase 100 milhões de usuários registrados em mais de 250 países. Qual a posição do Brasil nesse ranking e quais são as expectativas de expansão e inovação para os próximos anos?
Com quase 11 milhões de usuários registrados, o Brasil está no top 3 e é um dos nossos maiores mercados, sendo prioridade para nós, já que tornar a plataforma mais conhecida pelo público potencial no Brasil é valioso. Nos últimos anos, começamos a intensificar os esforços de marketing no país, iniciando com nossas operações de comunicação e mídias sociais regionais, lançando nossas contas locais no Instagram e no TikTok para alcançar mais usuários e interagir com os fãs. Também estamos focados em garantir conteúdo de alta qualidade, acessível em português, e continuaremos a explorar maneiras de expandir a plataforma para outras audiências, avaliando as possibilidades, por exemplo, de participar de eventos locais para nos conectarmos ainda mais com nossos usuários no país. Também estamos disponibilizando conteúdo com os talentos e atores de nossas séries, que falam diretamente com o público brasileiro, em redes sociais e entrevistas para a imprensa, o que não era muito acessível e comum antes, para que os fãs possam estar mais próximos de seus atores asiáticos favoritos.

Ao que atribuem o crescimento do interesse do público brasileiro por séries e filmes asiáticos?
O público brasileiro está entre os mais engajados quando se trata de streaming. Há uma clara preferência por dramas que têm estrutura e narrativa emocional semelhantes às das “novelas”, o que torna gêneros como romance e melodrama especialmente populares. O que diferencia os fãs brasileiros é que eles não se limitam a assistir ao conteúdo: eles participam ativamente de discussões online, criam páginas de fãs e interagem com criadores e plataformas nas redes sociais. A paixão dos fãs brasileiros se reflete na rapidez com que adotam novas tendências e contribuem para a popularidade das séries. Esse alto nível de interação faz do Brasil um público-alvo fundamental, não apenas em termos de audiência, mas também de promoção orgânica, ajudando o conteúdo a alcançar ainda mais pessoas.

Como se comporta e como o Viki tem se adaptado para atender ao perfil do fã brasileiro?
Já que o Brasil é uma das prioridades do Viki, a satisfação dos fãs e usuários brasileiros em relação ao nosso catálogo de conteúdo é crucial. Prova disso é a ampla oferta de séries, filmes, reality shows e outros conteúdos que disponibilizamos na plataforma nessa região, que tem uma forte aderência e paixão pelos personagens e pelas histórias asiáticas. O interesse dos brasileiros pelas séries e músicas asiáticas tem crescido a cada ano, e, no geral, reparamos que a nossa audiência busca os programas mais comentados e em alta, especialmente quando se trata da geração Z e dos millennials. O entretenimento asiático tem fãs de todas as idades e eles são especialmente engajados no Brasil, atraídos por histórias novas e únicas, relacionadas às suas vidas cotidianas. Assim, temos nos adaptado de forma a oferecer e focar esforços em garantir que atendemos nossos consumidores e fãs no Brasil de forma significativa, tanto para os que já conhecem a plataforma quanto para os que ainda se tornarão futuros amantes do conteúdo asiático.

Qual a preferência dos espectadores pelo consumo do conteúdo em dispositivos (TV, celular etc.)?
Observamos que o consumo de conteúdo hoje é guiado pela conveniência. O celular continua sendo o dispositivo mais popular, pelo qual vemos que os usuários brasileiros preferencialmente optam por consumir os conteúdos (71%), seguido por televisão (18%) e online (11%). Achamos que as redes sociais e o forte uso dos celulares influenciam diretamente esse comportamento, já que a facilidade de poder assistir quando e onde quiser é algo que os usuários do Viki valorizam.

Qual a estratégia de marketing do Viki para atrair o público em cada um desses segmentos?
Temos buscado cada vez mais maneiras de expandir nosso conteúdo e o conhecimento do entretenimento asiático, e investimos nossos esforços para que isso chegue ao público da forma mais fácil, assertiva e acessível possível. Assim, estamos presentes ativamente nas redes sociais para atingir os usuários que estão conectados via celular, como também em CTVs, adentrando também seus lares, com a comodidade de unir a família em frente ao televisor. Podemos citar outro exemplo de estratégia de marketing que faz parte do Viki desde 2023, quando criamos o Dia Internacional do K-Drama, uma data para celebrar a crescente popularidade e reunir o fandom do entretenimento coreano em todo o mundo. Para isso, uma das ações que fazemos é disponibilizar séries gratuitamente, além de oferecer brindes e promoções que foram pensados para atender aos fãs, com parcerias com marcas e empresas que já são conhecidas entre eles. Neste ano, tivemos a primeira campanha publicitária do K-Drama Day com os atores Will Poulter (‘O urso’, ‘Guardiões da galáxia’) e Victoria Justice (‘Zoey 101’, ‘Victorious’), que estreou em plataformas digitais e CTV, lançada como parte da estratégia multifacetada para a data.

Quais as diferenças regionais de consumo da audiência brasileira?
O nível de conexão emocional é algo muito especial e característico dos espectadores brasileiros e latino-americanos. Eles não apenas assistem aos dramas, mas, sim, os vivenciam. Da criação de fanarts e administração de contas em redes sociais, à participação em seções de comentários em que avaliam episódio a episódio, eles transformam a visualização do conteúdo em uma experiência compartilhada e mútua. Também notamos que os fãs brasileiros estão cada vez mais conectados com a plataforma, já que seu tempo total de exibição aumentou quase 30% em relação ao ano passado.

O Viki afirma ter mais de 1.400 títulos gratuitos disponíveis na plataforma. Qual o modelo de negócios e a política de anúncios?
O Rakuten Viki sempre foi um destino para quem está interessado em conteúdo asiático de alta qualidade. Nosso objetivo é nos diferenciar oferecendo títulos que não estão disponíveis em todos os lugares e proporcionando uma ampla variedade de conteúdo gratuito, disponível com uma simples inscrição na plataforma, para qualquer um que se registrar. A biblioteca gratuita do Viki é uma das maiores entre as plataformas de streaming, com mais de 2.400 dos 2.800 programas e filmes disponíveis no Brasil. Além disso, a diversidade é e sempre será uma base fundamental para o Viki, e garantiremos que o conteúdo asiático culturalmente rico que apresentamos ao público em todo o mundo seja diverso e inclusivo. Nosso modelo de negócios e política de anúncios se baseia no oferecimento de uma parte do catálogo gratuitamente, com suporte por anúncios. Ou seja, usuários que se inscrevem gratuitamente têm acesso a um vasto catálogo, mas assistirão a anúncios. Já quem opta por assinar o Viki Pass tem o benefício expresso de assistir sem anúncios, e uma maior variedade de títulos e conteúdos.

O Viki introduziu o gênero BL (Boys’Love) na plataforma em 2016. O quanto se desenvolveu de lá para cá?
O Viki apresentou o BL pela primeira vez aos usuários do Brasil em 2016 e agora conta com mais de 150 séries BL no total. Dada a tendência atual, os telespectadores continuam interessados em conteúdos BL, já que, nos últimos anos, vimos um aumento muito significativo no consumo desse gênero, que foi de 188% entre 2022 e 2023. Essa categoria se tornou um fenômeno real, com um número impressionante de séries sendo produzidas em países como Tailândia, Taiwan e Coreia do Sul, com uma enorme aceitação da audiência. Além de fomentar a diversidade, o Viki quer garantir que a plataforma continue sendo referência na inclusão.

Que papel o Brasil ocupa hoje na estratégia global do Viki?
Temos focado nossos esforços em diversos âmbitos para atrair ainda mais audiência e assinantes, e fazer com que a plataforma cresça, para que o conteúdo chegue a cada vez em mais pessoas e telespectadores. Nosso intuito é continuar a apresentar novos programas, séries e filmes no Brasil, para manter a plataforma repleta de conteúdo empolgante e relevante, e investir cada vez mais em entretenimento asiático diversificado, destacando-se de outros streamings. Também pretendemos disponibilizar mais conteúdo com legendas em português em alta qualidade e trazer mais séries populares, com elencos conhecidos e já celebrados, para engajar ainda mais os fãs. Além disso, pretendemos fomentar as parcerias com marcas locais, estar presentes em eventos e aumentar o engajamento no país, com representação em eventos culturais relacionados à cultura asiática e feiras, para consolidar a comunidade brasileira, que já está cada vez mais ativa e apaixonada.

O streaming global encara desafios crescentes de saturação e competição. Como vocês os enfrentam?
O maior desafio que enfrentamos hoje como uma plataforma de streaming é fazer parte da vida das pessoas. Quando se trata de tempo gasto consumindo o conteúdo, as redes sociais e o cenário de streaming saturado impactam diretamente esse tempo de consumo, especialmente quando outras plataformas também estão direcionando seus esforços para o entretenimento asiático. Então, para tornar-se a preferência do usuário, focamos na visão de mercado da equipe, onde podemos explorar ainda mais todas as nossas opções quando se trata de criatividade e criação de promoções de marketing atraentes para alcançar potenciais públicos, e o nosso próprio público, já engajado com o conteúdo. Acreditamos que outras plataformas que oferecem conteúdo do Leste Asiático apenas aumentam a busca crescente e o interesse mundial por esse tipo de conteúdo e outros. É importante que o público encontre esses títulos, comece a apreciá-los e, eventualmente, encontre o seu caminho até o Viki, proporcionando a eles ainda mais variedade e profundidade de conteúdo asiático para consumir. O Viki tem uma comunidade única e engajada, recursos de produtos que incluem classificação e revisão, comentários e coleções de títulos para fãs, que são recursos diferenciados que nossos usuários gostam, o que também é uma maneira de obter feedback sobre o que nosso público está procurando quando se trata de novos conteúdos. Adoramos manter o Viki como um espaço seguro para nossos usuários e nossa missão é unir culturas e conectar o mundo ao incrível entretenimento asiático por meio de nossa comunidade de fãs apaixonados e conteúdo premium.

Você é uma liderança empresarial asiática em um mercado predominantemente dominado por homens. Quais são os seus desafios e vantagens em relação a isso?
Ser uma liderança feminina em um setor ainda marcado por uma presença majoritariamente masculina traz, sem dúvida, desafios, mas também oportunidades únicas. O principal desafio é mostrar que a diversidade de gênero não é apenas uma pauta social, mas uma vantagem competitiva real. Em um mercado criativo como o do entretenimento, perspectivas diferentes geram narrativas mais ricas e produtos mais conectados ao público. Ao mesmo tempo, vejo uma vantagem em liderar e sinto orgulho de contribuir para uma cultura corporativa que valoriza e que inspira outras mulheres a ocuparem espaços de decisão. No fim, liderar nesse contexto significa abrir caminhos: não apenas para mim, mas para toda uma nova geração que vê no streaming asiático um reflexo mais diverso, autêntico e global do que somos.

Ao que você atribui ainda ter tão poucas mulheres em cargos de liderança nas empresas asiáticas?
Apesar de o Viki ser uma empresa com sede nos Estados Unidos, essa é uma questão complexa, que tem raízes culturais e estruturais. Ainda vemos poucas mulheres em cargos de liderança porque muitas estruturas corporativas, na Ásia e em outros países, foram moldadas por modelos tradicionais. Mas isso está mudando. As novas gerações trazem uma visão mais colaborativa e equilibrada, e as empresas já entendem que a diversidade de gênero é sinônimo de inovação. O desafio agora é transformar essa consciência em ação, criando cada vez mais espaços onde o talento feminino possa realmente florescer.

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