
Vocês têm na marca o nome “Japas”, que muitas vezes é um termo usado de forma estereotipada ou pejorativa. Você já se incomodou de ser chamada assim?
Sim, não é algo que a gente goste de ser chamada, é uma forma estereotipada, ainda mais quando vem de gente que não me conhece, que não tem nenhuma intimidade.
Como ressignificaram isso?
De um termo pejorativo e ofensivo transformamos em algo que tivéssemos orgulho. Se é assim que chamam a gente, então abraçamos, ressignificamos, transformamos e mostramos o contrário; mostramos como somos orgulhosas de ter essa mistura Brasil-Japão.
Vocês três trabalharam no mercado cervejeiro?
Sim, mas em lugares diferentes. Eu, em Ribeirão Preto, era da cervejaria Colorado. A Maíra tinha fundado a 2Cabeças, a primeira cervejaria “cigana” no Brasil, sem fábrica própria, produzindo por meio de contrato em outras cervejarias, assim como nós hoje. E nos conhecemos em festivais de cerveja que sempre participávamos. Conheci a Yumi quando fizemos um curso de sommelier de cervejas, em 2012. Ela também já trabalhava na área, porque é designer, fazia rótulos para cervejarias, capas de revistas de cervejas. E aí nos unimos. Hoje ela faz todas as artes da Japas.
Nesse modelo “cigano”, como controlam a qualidade em outros países onde produzem, como Taiwan e Estados Unidos?
Começamos nos Estados Unidos, em 2019. Temos visitas periódicas, mas também acompanhamos muito bem online. Até porque temos um processo de seleção da cervejaria muito criterioso. Quando eu estava na Europa, era o que eu fazia como auditora interna da cervejaria onde trabalhava, cuidando de todo processo de gerenciamento de qualidade, dos equipamentos necessários para se ter segurança alimentar. Hoje trabalhamos lá com a cervejaria Against The Grain, que é muito boa. E esse modelo é muito bom, porque a cerveja tem um custo mais baixo para o consumidor final, é mais sustentável, já que não gasta combustível para transportar de um país para outro, e ela vai estar melhor, fresca, porque ao longo de transportes pode sofrer com algum problema de refrigeração, por exemplo. Em Taiwan, começamos no ano passado com uma parceria com descendentes de taiwaneses que nos representam e montaram todo o processo para começarmos a produzir e vender, nos ajudaram com todos os contatos. Já começamos em pontos de venda legais, como a 7-Eleven. E está dando supercerto.
É possível comparar os mercados?
O mercado em Taiwan é bem menos desenvolvido do que nos Estados Unidos, onde vendemos mais até do que no Brasil. O mercado de cerveja artesanal nos Estados Unidos é mais maduro, tanto de tempo quanto de conhecimento, está muito à frente. As pessoas consomem mais, o preço é muito mais próximo de uma cerveja mainstream. No Brasil, a cerveja artesanal ainda é muito cara. Taiwan está ainda mais no início, é um mercado muito menor. A preferência também é diferente. Eles não gostam de cervejas muito amargas, gostam mais de um estilo um pouco mais doce.
Como vocês fazem para entender essas preferências?
A gente viaja bastante, estuda as cervejas. Embora eu nunca tenha ido a Taiwan especificamente, fui a um festival de cervejas na China e pude experimentar as cervejas de lá. É meio parecido com o Japão, que também não explora muito os extremos. Eles gostam de cervejas mais redondas, mas não muito complexas. Acho que agora o mercado no Japão está começando a andar mais rápido.
Há planos de venderem lá?
Sim. Temos uma viagem para lá em maio que, na verdade, está sendo planejada com uma agência de turismo para quem estamos fazendo a curadoria do tour, que vai ser focado em cerveja e saquê, além de arte e gastronomia. Após o tour, vamos ficar lá por um mês. E nessas viagens a gente experimenta bastante, vê o que está acontecendo em outros lugares. Os concursos de cerveja também são muito importantes. Eu julgo, por exemplo, o World Beer Cup, que é o maior concurso de cerveja do mundo, voltado mais para a indústria. E isso me permite experimentar cervejas do mundo inteiro. Embora seja uma degustação cega – então não sei quais são as cervejas –, pelos ingredientes sei que são da Ásia. Este ano eu provei muita coisa que tinha sancho, yuzu, wasabi, que são coisas que também usamos muito na Japas. Então, potencialmente, são cervejarias da Ásia.
Como está o portfólio de vocês?
Temos uma linha básica, disponível o ano inteiro, que são as latinhas menores de 310 ml. Temos seis cervejas que são muito boas para “entrada”. São estilos mais básicos, bem-feitos, alguns com ingredientes adicionados, uma sem nada. Temos a Matsurika, uma bohemian pilsener com jasmim, que é a que mais vende; a Oishii, uma witbier com gengibre e casca de laranja; a Onigiri, uma lager com arroz que é sem glúten; a Hanami, uma sour ale mais azedinha, com cereja, hibisco, jasmim e amêndoas; e a Wasabiru, que é a nossa primeira cerveja e mantemos no portfólio até hoje, uma American Pale Ale com wasabi. E temos a Neko, que é só malte de cevada, lúpulo, levedura e água. A gente fala que o ingrediente especial dela é sorte, porque o rótulo é a imagem de dois Maneki Neko, um dos amuletos japoneses da sorte. Eu também sentia falta de ter uma cerveja assim no Brasil. E a gente gosta de fazer o que gosta de tomar (risos). Temos também a linha sazonal. São duas cervejas que produzimos por mês com estilos mais complexos. Como trabalhamos muito com frutas, muitos ingredientes japoneses, há muita coisa sazonal. Então esperamos a época da safra para conseguirmos uma quantidade boa para fazer um ou dois lotes.
Os fornecedores também são descendentes de japoneses?
A maior parte dos nossos fornecedores é descendente de japoneses. Então a gente acaba ajudando a fortalecer a comunidade.
Vocês passam a ideia de ter muito controle de todo o processo de desenvolvimento. Como se dividem nas tarefas?
Trabalhamos muito bem juntas. Quando vamos fazer o planejamento do ano seguinte, nos reunimos para definir o que vamos produzir, o estilo, conceito, nome, quantas cervejas. Fazemos um planejamento sempre no ano anterior e passamos para as cervejarias e para os parceiros toda uma prévia do que vai ser o próximo ano. A partir daí eles já se preparam também para vender conforme o que vamos produzir. E seguimos acompanhando tudo. Durante a rotina, temos reuniões semanais, acompanhando cada cervejaria onde produzimos e temos os arquivos online também. Se tem um lote em produção, conseguimos acompanhar tudo: temperatura do tanque, fermentação, qualquer coisa, de qualquer lugar e ao vivo.
O japonês carrega o estereótipo do profissional organizado, preciso no que faz. Você acredita nisso?
Não sou uma pessoa muito organizada na minha vida pessoal, mas com trabalho sou bem metódica. Gosto de acompanhar tudo certinho, ter prazos e tudo muito organizado, ter uma visão muito boa do resultado que vou conseguir. Mas a gente tem o lado brasileiro também, ousamos mais. Acho que o diferencial de ser nipo-brasileira é isso, conseguimos misturar bem as coisas e formar uma terceira. Isso se reflete na nossa vida pessoal cotidiana – a gente faz churrasco e tem onigiri; produz cerveja com missô, que é algo mais salgado, mas que fica ótimo; vamos comer alguma comida brasileira, mas não usamos arroz comum, usamos gohan. A gente nasceu e cresceu nessa mistura.
Além das cervejas, vocês empreendem também em outras áreas, certo?
Dizemos sempre que, na Japas, nós somos três sócias muito boas na parte de criação. E temos disciplina para fazer as coisas acontecerem. Se deixar, a gente cria demais. Produzimos roupas, temos agora uma coleção, a Konbine (nome japonês para loja de conveniência), com camisas, bonés, shorts, ecobags, mas tudo com o selo Japas. Achamos importante trabalharmos em outras frentes, então fazemos collabs com outras marcas e de outras áreas, porque é importante estarmos em outros ambientes onde normalmente não atuamos. E, para outras marcas, é importante entrarem em outros mercados. Então acaba sendo bom para todo mundo. Não queremos estar somente presas à ideia de cerveja, porque o conceito da nossa marca é muito abrangente; podemos estar em vários outros ambientes e mercados com a mesma história.
Vocês viveram algum “dorama” pela escolha que fizeram ao empreenderem nesse universo da cerveja?
Eu vivi um pouco, porque me formei em engenharia de alimentos e fui trabalhar em uma cervejaria, por volta de 2011. Hoje há muitas mulheres trabalhando, mas na época era considerado um trabalho muito masculino, pesado física e mentalmente. Eu trabalhava por turnos, entrava de madrugada, abria a cervejaria sozinha, era um bairro perigoso, carregava saco de malte mais pesado que eu, então meu pai ficava muito indignado, preocupado. Mas eu gostava muito do que fazia e sabia que aquilo ia me render algo maior. Trabalhei em muitas frentes na cervejaria. Então, quando estava mais em cargos gerenciais, tinha momentos em que cheguei a sentir falta de moer malte. Eu ficava entediada na frente do computador e pensava: preciso moer uma tonelada de malte (risos). Eu gosto muito de trabalhos manuais. Mas, respondendo à sua pergunta, tive um pouco de dificuldade no início por causa disso, meu pai e até meus tios achavam que eu tinha de procurar outro trabalho.
E sua mãe?
No começo ela também ficava preocupada. Mas, quando eu comecei a Japas, acho que isso mudou a chavinha, porque, querendo ou não, a gente conta a história da família. Quando viram o que tínhamos feito, acharam muito legal, trouxe muito orgulho para eles. Então, quando comecei nesse mercado era uma coisa, mas depois, quando formamos a Japas, a percepção foi outra.
Pode dar um exemplo de como contam isso?
Descobrimos que a minha família e a da Yumi vieram para o Brasil no mesmo navio, então fizemos cervejas em homenagem às famílias de imigrantes com nomes dos navios que eles vieram. Nas nossas pesquisas, aprendemos muito sobre a nossa história, e os nossos parentes também ficam sabendo mais sobre a deles por meio do que apresentamos. Na medida em que íamos descobrindo algo, ajudávamos outras pessoas a se descobrirem também. Até porque muita gente, assim como nós, já passou por bullying, já teve de escutar coisas como “Volta para o seu país!”. E muitas vezes a gente cresce achando isso natural, mas depois, quando se tem consciência, percebemos que não podemos ficar quietas e achar que aquilo é apenas uma piada. No início, focamos muito em Japão, mas quando começamos a vender nos Estados Unidos, percebemos que tínhamos de mostrar mais essa mistura Brasil-Japão, que na verdade é outra coisa, é uma terceira comunidade.
Vocês resgatam a história da família e de personagens históricos, como as das ativistas japonesas Higuchi Ichiyô, Toshiko Kishida e Fukuda Hideko. Como se deu isso?
Fizemos essa collab com a Komorebi Translations há uns anos. A ideia era resgatar a memória dessas mulheres consideradas pioneiras no feminismo no Japão, ligadas à cultura, à literatura, às causas sociais e políticas, porque são os nossos valores também. Então a gente quer relembrar a história delas, que foi tão importante, tão inspiradora para onde chegamos hoje como mulheres, como empreendedoras, como líderes.












