Qual a influência da descendência asiática na sua vida?
Minha avó paterna é japonesa, mas meu pai nasceu no Brasil e minha mãe é mineira. Quando criança, ele entendia japonês, mas não falava nem escrevia. Eu e meus irmãos tivemos pouco contato com a cultura japonesa em casa. Foi na escola que comecei a descobrir minha identidade asiática. Eu era chamado de “japa”, mas não me conectava com essa imagem. Eu me comparava muito com o padrão estético ocidental, o que tornava muito difícil aceitar meu corpo e a minha aparência, tão diferentes do resto da sala.
Em casa, nos churrascos de família, existiam pontos de conexão: o sushi, a presença da minha avó… mas também tinha a parte árabe, com quibe à mesa. Era uma verdadeira festa multicultural.
E quando se intensificou esse contato?
Foi na faculdade, de um jeito até engraçado. O Thiago Amaral Minami, que hoje é um amigo, achou meu nome parecido com o dele e veio falar comigo. Ele era de São Paulo e eu estudava em São Carlos (SP). Ele tinha a cultura japonesa muito presente na vida, já tinha sido dekassegui, trabalhando em empresas no Japão. Estava estudando para fazer mestrado lá, depois fez doutorado e hoje mora em Tóquio, com uma relação muito forte com o país.
Foi ele quem me apresentou aos amigos descendentes de japoneses. Passei a conviver com a cultura japonesa de forma muito mais intensa por meio desse grupo. A gente saía, frequentava certos lugares e, às vezes, parecia que existia uma minicolônia japonesa nas baladas.
Foi nesse período que você foi ao Japão?
Fui ao Japão em 2010, aos 25 anos. Foi uma experiência muito forte. Parecia aqueles vídeos de animaizinhos sendo reinseridos no habitat natural. Muitas coisas que eu não entendia em mim passaram a fazer sentido lá.
Foi uma viagem que me reconectou com muita coisa. Eu tinha muitos problemas de autoimagem. Mas, de repente, não era mais como se eu fosse o “patinho feio”; eu apenas não tinha encontrado o meu lugar ainda.
E aí veio o cinema…
Estudei cinema, bacharelado em Imagem e Som. Depois fui para São Paulo e trabalhei em produtoras por mais de dez anos. Passei por empresas como O2 Filmes, Bossa Nova Filmes e Ocean Filmes, entre outras, sempre no audiovisual e na publicidade.
Mas chegou um momento em que eu senti o desejo de criar algo meu. A minha trajetória pessoal e profissional está totalmente entrelaçada com esse processo de autodescoberta e de reconexão com a minha ancestralidade.
E quando se deu seu primeiro trabalho autoral?
Em 2014, com uma coletânea de livros infantis, a AMAR, com temática LGBT, que fiz com o Bruno H. Castro e vários ilustradores. A partir dali, entendi que precisava parar de produzir só para os outros e realizar as minhas próprias ideias.
E aí veio o filme Sangro. Como se inspirou?
A inspiração surgiu depois que assisti a um documentário sobre o Kurt Cobain, que falava sobre o processo criativo dele. Pensei: “Meu sonho sempre foi escrever algo assim, por que eu não estou fazendo isso?”.
Em 2016, 2017, comecei a me dedicar de verdade à escrita cinematográfica. Decidi escrever sobre uma pessoa que convive com HIV. Era uma história curta, mas muito potente. A ideia nasceu quando eu estava começando um namoro com quem hoje é meu marido. Foi algo muito forte. Ele me disse: “Demorei tanto tempo para sair do armário, agora parece que estou voltando, por causa do HIV”. Aquilo me tocou profundamente.
Respondi: “Vamos fazer um filme. Você vai contar isso para o mundo e vamos mudar a forma como as pessoas olham para isso”.
Na época, ainda havia muito preconceito, né?
Sim, e ainda há. Muita gente ainda associa HIV diretamente à aids, como se fosse a mesma coisa. As pessoas seguem presas a uma visão estigmatizada dos anos 1990, às imagens sensacionalistas da mídia com o Cazuza, o Freddie Mercury.
Mas o que precisamos é falar sobre o que é viver com HIV hoje. Foi um aprendizado meu também, convivendo com o meu marido, entendendo o tratamento, os exames, a medicação, o momento em que a carga viral fica indetectável…
E aí estourou…
Foi um boom. Sangro, que escrevi e dirigi em parceria com o Bruno H. Castro, circulou pelo mundo todo, passou por mais de 70 festivais, ganhou os principais prêmios no Brasil e teve grande repercussão. Foi a minha estreia na direção.
Foi muito importante perceber que eu tinha capacidade de produzir e ver o alcance do que eu poderia gerar. Entendi que precisava continuar fazendo cinema.
E aí começa a haver mais influência direta da cultura oriental no seu trabalho?
Na verdade, isso começou antes, em 2015. Durante a produção da coletânea, eu ministrei uma oficina artística para pessoas trans. Foi quando descobri, com mais profundidade, as vivências dessas pessoas, o quanto sofriam preconceitos e violências. Descobri que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo.
Pensei: “Preciso fazer alguma coisa, preciso usar essa ferramenta que tenho para algo maior”. Um dia, assistindo a uma apresentação no Sesc da cantora trans Anohni com o dançarino japonês Yoshito Ohno, filho do mestre do teatro butô Kazuo Ohno, algo virou a chave.
Yoshito dançava com um boneco representando o pai, enquanto Anohni cantava. Aquilo me remeteu à ideia de um roteiro: um “boneco” em busca de sua identidade trans, inspirado no teatro japonês Bunraku (teatro de bonecos do Japão). Assim nasceu a ideia de Kabuki.
Ou seja, surgiu antes de Sangro?
Sim. A ideia de Kabuki veio antes mesmo de Sangro. Tentei inscrevê-lo em editais, mas era um filme caro, complexo, com muitas demandas técnicas e orçamentárias. Na época, não era viável.
Depois que Sangro circulou e ganhou visibilidade, retomei o projeto de Kabuki. Em 2019, finalmente conseguimos o primeiro edital aprovado e iniciamos a produção. Mas o roteiro, o conceito visual e toda a preparação vinham sendo desenvolvidos desde antes.
Nesse processo criativo, do planejamento à execução, você percebe alguma relação com a influência da sua ancestralidade japonesa?
Com certeza. Acho que herdei muito isso do meu pai, que era engenheiro civil. Cresci com essa lógica de planejamento e de construção por etapas, como em uma obra.
Mesmo sem ter sido criado mergulhado na cultura japonesa, esse modo de pensar, organizar, estruturar, concluir projetos e ter um olhar para o todo — inclusive para o que vem depois —, uma ética muito forte no trabalho, tudo isso me acompanha até hoje.
Acho que há muito da cultura oriental nisso, mas também do ambiente em que cresci. É claro que existe um estereótipo de que “japonês é assim”. Não são todos. Somos fruto do nosso meio. Não existe uma genética que nos transforme automaticamente desse jeito. É preciso educação, contexto, um ambiente que favoreça esse processo. No meu caso, isso sempre esteve presente em casa.
E como você lida com isso na sua criação, no seu trabalho?
Quando comecei Kabuki, fiz questão de montar uma equipe com pessoas descendentes de japoneses, como Stephanie Saito, Fabiana Fukui, Larissa Nakashima. O Guilherme Petreca, diretor de arte e responsável pelos desenhos, não é descendente, mas é completamente apaixonado pela cultura japonesa — é mais “japonês” do que eu.
Percebo uma identificação muito sutil na forma de me comunicar com essas pessoas. Só quem já recebeu o olhar de uma tia japonesa sabe do que estou falando. Ela não precisa de muitas palavras para dizer o que quer. É algo quase intuitivo.
Não é um desmerecimento a quem não é descendente, porque cada pessoa é diferente, mas eu sinto uma forma de comunicação e de lidar que tem uma identificação muito forte.
E qual a sua percepção sobre essa influência japonesa hoje?
A influência japonesa sempre teve um nicho, especialmente em São Paulo, nos mangás, na culinária, nos eventos da comunidade. Mas hoje vejo um impacto ainda maior da influência da Coreia do Sul, que investiu pesadamente na indústria cultural.
Se eu estivesse na escola hoje, minha autoimagem seria outra. Existe uma exaltação — às vezes até fetichização — do corpo asiático. Mas essa imagem vem muito mais da Coreia do que do Japão, ainda que construída sobre um modelo pop norte-americano.
Você tem estudado essas influências, não é?
Nos estudos que venho fazendo para o meu próximo longa, que tem referências ainda mais japonesas, percebi como o Japão do pós-guerra viveu duas projeções culturais muito fortes:
De um lado, a exaltação de um passado tradicional — o kabuki, as gueixas, os samurais etc. De outro, a imagem de um país moderno, tecnológico e alinhado ao Ocidente.
Após as bombas atômicas e a ocupação americana, houve uma tentativa de apagar o imaginário negativo associado à aliança com o nazismo e reconstruir uma nova narrativa: a de um Japão pacífico, limpo, organizado e conectado às tradições. Até hoje, muitos desconhecem ou têm dificuldade em conceber o papel do Japão na Segunda Guerra.
Estando em muitos festivais de cinema, onde há também muitos jovens, você percebe esse maior interesse pela cultura asiática?
Quando vi que a ida dos membros do BTS ao exército impactou o PIB da Coreia, ficou claro o poder da cultura oriental hoje.
Algo interessante nos mangás, mesmo sem eu ser especialista, é a diferença entre a jornada do herói ocidental e a oriental. No Ocidente, influenciado pelos EUA, a narrativa é centrada no feito individual — alguém que supera tudo por mérito próprio, como em Harry Potter.
Já no Oriente, a transformação do herói tem menos a ver com uma trajetória linear individual e mais com um ser que vai aprendendo coletivamente e se transformando dentro de um grupo social. Em A Viagem de Chihiro, por exemplo, não se trata de ser “a maior” ou “a melhor”, mas de amadurecer com os outros, em grupo.
Talvez isso explique por que tantos jovens se identificam com animes e mangás: eles criam um espaço de pertencimento e de identidade compartilhada.
Na produção de Kabuki há toda uma inspiração japonesa evidente, mas também há o seu olhar de brasileiro. Como você enxerga a junção das duas culturas nesse processo criativo?
Esse processo foi uma libertação pela qual eu precisei passar. Quando você mexe com uma linguagem tão enraizada e tradicional como o teatro japonês, há sempre o risco de ser ofensivo ou equivocado. Para não travar o meu processo criativo, eu precisei me afastar desse lugar.
Entendi que tudo o que eu fizer sobre o Japão será sempre sobre o imaginário que tenho como descendente e como alguém que não nasceu nem foi criado lá. Eu nunca vou fazer uma obra como um japonês faria. Assumir esse olhar estrangeiro, essa inspiração por um Japão imaginado, foi o primeiro passo.
No caso de Kabuki, eu uso o imagético japonês, mas já no primeiro plano trago uma referência a Narciso, que é totalmente ocidental, assim como a gueixa que remete à Pietà, de Michelangelo. São imagens que eu quis trazer e que dialogam com questões de autoimagem, de ser esse oriental no Brasil.
Ao mesmo tempo, é um filme sobre o Brasil, porque o tema central é uma questão brasileira: a morte de pessoas trans. Um país onde pessoas transexuais são assassinadas todos os dias, onde a violência atravessa a existência delas.
Essa mistura de referências orientais, ocidentais, religiosas e populares não é só estética, é política. Ela nasce de mim, da minha vivência. E eu queria, narrativamente, fazer o Oriente se encontrar com o Ocidente porque, no fundo, é isso que eu sou.













