Você diz que sua missão para os próximos 20 anos é conectar a China com o mundo. Poderia contar um pouco sobre a decisão que te levou a essa missão e sua trajetória até aqui?
Nos últimos 20 anos, meu trabalho tem sido conectar pessoas dentro da China. Agora, tenho conectado empreendedores chineses com empreendedores estrangeiros. Como chinês, acredito muito que, nos próximos anos, a China vai se tornar a principal potência global. Algumas pessoas dizem que isso já aconteceu, mas acho que ainda precisamos de mais tempo. E eu não quero que a China seja uma superpotência que interfere nos outros países. Quero que seja uma potência que construa boas relações, especialmente com os países do Sul Global. A geração anterior, como Jack Ma ou Richard Liu, construiu grandes empresas do zero. A minha geração tem a missão de conectar a China ao mundo. Somos mais globalizados. Queremos contribuir mais com outros países. Conheço muitos jovens empreendedores chineses, muito ambiciosos, com visão global. Eles querem criar marcas reconhecidas mundialmente. Eu me vejo mais como alguém que conecta a China culturalmente com outros países. Somos diferentes, mas temos a mesma visão: tornar a China melhor e contribuir mais com o mundo.
O mundo hoje quer ver a China de perto, e você é um chinês que está sempre indo ver o mundo. Qual a sua percepção sobre ele e sobre como o mundo vê a China?
Nos últimos três anos, visitei mais de 60 países. Fui a Bangladesh, Iraque, Nigéria, Quênia, Brasil, Chile, México, Argentina, Uzbequistão, Cazaquistão, entre muitos outros.Tradicionalmente, os chineses não gostam muito de sair do país. Na nossa cultura, existe um ditado: 父母在不远游 (fù mǔ zài, bù yuǎn yóu), que significa de uma forma mais contextualizada: “Se seus pais ainda estão vivos, você não deve morar ou viajar para muito longe deles.” Na tradição confucionista, os filhos têm a responsabilidade de permanecer próximos dos pais para poder cuidar deles, especialmente na velhice.Quando somos jovens, nossos pais cuidam de nós. Quando eles envelhecem, nós cuidamos deles. Por isso, culturalmente, não é comum sair para morar longe, especialmente no exterior.Além disso, a China é muito grande, com um mercado enorme. É como o Brasil: não é preciso sair do país para encontrar oportunidades. Cada província chinesa é como um país.
Mas estão viajando mais, não?
Depois da pandemia, desde 2022 e 2023, começou uma nova onda de empresas chinesas indo para o exterior. Ainda estamos em um estágio inicial.A maioria dos chineses sabe pouco sobre outros países. Mesmo tendo uma visão internacional, conhecemos pouco da cultura e dos negócios locais. No Brasil, há muitos chineses em São Paulo, mas poucos em outras cidades.Com 1,4 bilhão de habitantes, a maioria dos chineses não sabe quase nada sobre o Brasil.Muitos conhecem apenas os Estados Unidos, porque a mídia chinesa fala muito sobre eles. Mesmo sem nunca terem ido lá, sabem opinar. Por isso, vou à América Latina, ao Sudeste Asiático e à África. Não podemos focar apenas nos Estados Unidos. Precisamos entender melhor os países do Sul Global.
E como você acha que o mundo vê a China hoje?
Por causa da pandemia, entre 2020 e 2024, poucos estrangeiros foram à China. O país mudou muito, mas o mundo não percebeu. Agora, quando as pessoas estão voltando a visitar a China, ficam surpresas. A tecnologia, a robótica, a inteligência artificial… tudo é muito avançado. Existe uma grande diferença entre a imagem real da China e a imagem que circula fora. Em 2025, foi o ponto de virada: a imagem da China começou a mudar de negativa para positiva. Ainda é muito cedo. Muitos estrangeiros não sabem o que está acontecendo no país, mas, desde 2025, a percepção geral da China vem melhorando.
No Brasil, as informações sobre a China são positivas, impressionam do ponto de vista de tecnologia, cidades futuristas…
Sim, especialmente em comparação com os Estados Unidos e com o que aconteceu nos últimos anos. Antes, a maioria das pessoas conhecia a China apenas pela mídia tradicional, como CNN, BBC e New York Times, que costumavam falar de forma negativa. Agora, com Instagram e TikTok, os vídeos mostram a realidade. Eu mesmo gravo caminhando nas ruas de Xangai. É uma cidade normal, como São Paulo ou Nova York. Não é aquela imagem estereotipada de cidade comunista fechada. As redes sociais ajudaram a mudar isso. É uma nova geração de mídia.
“Não acreditamos muito em sorte ou destino; acreditamos que podemos lutar pelo que queremos.”
Há muitas críticas sobre a mídia chinesa, mas não percebemos o quanto a nossa também é controlada.
Concordo. Há essa crítica de que, na China, a mídia é controlada pelo Estado, que o país é comunista, autoritário, que tudo é propaganda do governo. Mas, em outros países, a mídia é controlada por ideologias.
Às vezes, nem é ideologia, é dinheiro mesmo.
Exatamente. Conheci um jornalista estrangeiro de um grande veículo que morava na China. Ele queria escrever textos mais objetivos sobre a realidade Chinesa, mas os editores em Londres recusavam. Diziam que o público europeu e as lideranças não queriam ler coisas positivas sobre a China. Mesmo ele vivendo lá e sabendo da realidade, não podia publicar.
Você diz que, se o mundo não entender o crescimento científico da China, vai perder o entendimento do futuro. Mas o que seria importante o mundo entender sobre valores chineses que levaram a essa ascensão? Há pouco, você mencionou a tradição confucionista.
Sim, Confúcio é muito importante, especialmente para os chineses. Sobre os valores, os chineses são conhecidos por trabalhar muito. Na cultura chinesa, sempre acreditamos que, se trabalharmos duro, podemos mudar nossa vida. Esse é um pensamento muito diferente de outros países, onde, às vezes, as pessoas acreditam mais no destino ou no que virá depois. Na China, quando você é jovem, precisa se esforçar ao máximo. Não acreditamos muito em sorte ou destino; acreditamos que podemos lutar pelo que queremos. Mesmo vindo de uma família pobre, se você estudar bastante, pode entrar em uma boa universidade, mudar sua condição social e transformar sua vida. Isso vem muito do pensamento de Confúcio: nunca desistir. Eu venho de uma pequena vila no sudoeste da província de Hunan, terra natal do presidente Mao. Fui para Pequim estudar, fundei minha empresa lá, depois me mudei para Xangai e passei a viajar pelo mundo. Sou muito influenciado pela cultura tradicional chinesa: trabalhar duro, ajudar os pais, apoiar a família. Esse é um valor central do confucionismo.
Esses são valores que o mundo deveria conhecer melhor?
Com certeza. Quando as pessoas falam da China, normalmente pensam apenas em comunismo e no Partido Comunista. Mas, para nós, isso não é o tema principal. Há mais de dois mil anos, a China valoriza estabilidade e prosperidade. Existe uma ideia histórica de que quando o governo central é forte, o país prospera. Quando não é, há caos. Por isso, muitos chineses acreditam que é positivo ter uma liderança forte. Enquanto estrangeiros veem isso como autoritarismo, os chineses enxergam como algo necessário para manter a estabilidade. Isso mostra como os valores são diferentes em cada país.
Você percebe semelhanças entre a China e a América Latina?
Sim. Estive viajando recentemente pela América Latina e percebi que as pessoas também valorizam muito a família.Aqui, assim como na China, as pessoas querem melhorar a vida dos pais e garantir um futuro melhor para os filhos. Trabalhamos duro pensando na próxima geração.No México, vi pessoas que trabalham muito e se dedicam à família. Existem muitas semelhanças culturais.

No seu trabalho de “desempacotar” a China para o público global, qual é, hoje, o maior mal-entendido que o mundo ainda tem sobre o país?
Acho que muitos não entendem que o sistema chinês funciona como uma meritocracia. Escolhemos líderes com base na experiência e na capacidade.Antes de chegar ao topo, um líder, como o presidente Xi Jinping, passa por várias etapas: começa em vilas pequenas, depois em cidades e províncias, até chegar ao governo central. O importante não é a ideologia, mas se a pessoa é capaz.Os líderes precisam provar sua competência com resultados. Claro que há problemas, como casos de corrupção, mas muitos altos funcionários são extremamente preparados.Os melhores estudantes da minha faculdade costumam ir para o governo. Eu não segui esse caminho porque não me considerava tão qualificado quanto eles.
“Os brasileiros, por outro lado, são excelentes em contar histórias, criar marcas e se comunicar.”
E como a cultura influencia essa visão sobre liderança?
No confucionismo, o líder é visto como o “pai” da nação. Assim como um pai cuida da família, um governante deve cuidar do povo. Por isso, os líderes chineses trabalham muito. Estão sempre ocupados, resolvendo problemas. Durante a pandemia, muitos trabalharam sem descanso. Na China, se um funcionário público não faz um bom trabalho, pode perder o cargo.
Você está muito imerso no universo do empreendedorismo, do mundo empresarial. O que acha fundamental o Brasil aprender com a China nesse segmento? Há algo que você sugeriria que a China aprendesse com o Brasil?
A China tem uma mentalidade de engenharia: foco em números, eficiência, qualidade e produtividade. Em muitas áreas tecnológicas, somos muito avançados.Os brasileiros, por outro lado, são excelentes em contar histórias, criar marcas e se comunicar. São mais descontraídos culturalmente.Na China, especialmente em lugares como Shenzhen, todos pensam em como tornar produtos mais baratos e melhores. Mas, muitas vezes, não sabem trabalhar bem o branding. Nesse ponto, o Brasil é muito forte.Além disso, o Brasil tem vantagem em áreas como esporte e criatividade. São qualidades que admiramos.
E sobre a presença de empresas chinesas no Brasil?
Há uma grande oportunidade para o Brasil atrair fábricas e investimentos chineses. Foi assim que a China cresceu há 40 anos, quando recebeu empresas estrangeiras. Hoje, empresas chinesas estão se internacionalizando. O Brasil pode aproveitar isso para desenvolver sua própria indústria. O mais importante é que essas empresas ajudem a formar engenheiros e técnicos brasileiros, transferindo conhecimento. Assim, no futuro, o país poderá criar suas próprias empresas fortes.
Você é autor de alguns livros, como Unpacking China, Windows and Walls: A Life Across China’s Forty Years, The New Wave of Going Global e The Blueprint for Going Global. O que vem por aí?
Nos últimos anos, meu foco tem sido estudar a internacionalização das empresas chinesas. Já publiquei dois livros sobre esse tema, muito conhecidos na China. Agora estou preparando o terceiro, que deve incluir experiências no Brasil. Pretendo publicá-lo até o final deste ano.
Você tem a figura da esfinge no seu perfil do Instagram. É uma referência a seu trabalho sobre o mundo que você está tentando decifrar ou é você mesmo, como uma representação chinesa, a esfinge?
Eu me vejo como parte de uma nova geração. Eu poderia ter escolhido uma foto em frente à Muralha da China, mas acho que a nova geração chinesa não quer apenas contar a própria história. Queremos compreender melhor outros países e outras culturas. Por isso escolhi uma foto no Cairo, no Egito. Ela representa essa abertura para o mundo. Quero mostrar que não estou apenas dentro da China, mas atuando em uma plataforma global. É claro que desejo que mais pessoas entendam a China, mas, ao mesmo tempo, eu também quero entender os outros países. É uma troca. Não é apenas ‘venham conhecer a China’. Eu também vou ao Brasil, ao Egito, a vários outros lugares, converso com as pessoas locais, aprendo com elas. Quem acompanha meu Instagram pode ver encontros que tive em San Diego, Lima, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Cidade do México… Eu gosto de dialogar com diferentes culturas. Essa é a mensagem que quero passar aos meus seguidores no mundo todo: assim como é importante conhecer a China, é igualmente importante que eu conheça o seu país.


