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Lula minimiza impacto de tarifas dos EUA e reforça aposta em diversificação comercial

Avaliação do governo é que o “tarifaço” teve efeito limitado sobre a economia brasileira, mas episódio expõe riscos de dependência e volatilidade geopolítica

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(Foto: Reprodução)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou 2025 com uma mensagem de otimismo sobre a economia brasileira e de distensão em relação a Washington. Em cerimônia no Palácio do Planalto, ele afirmou que o aumento de tarifas imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros acabou sendo “irrelevante” para o país, destacando a queda recente nos preços dos alimentos e a recuperação gradual do poder de compra da população. A fala faz referência ao chamado “tarifaço” anunciado pelo governo norte-americano ao longo do ano, que elevou em até 50% as alíquotas de importação sobre uma lista de bens brasileiros, especialmente do agronegócio.

As medidas de Washington, adotadas em meio a tensões políticas e comerciais, chegaram a atingir cerca de um terço dos produtos brasileiros vendidos aos EUA, com sobretaxa adicional de 40% sobre itens sensíveis como carne bovina, café e outros alimentos. Após meses de pressão diplomática e de lobby do setor privado, o governo norte-americano recuou parcialmente: em novembro, um pacote de revisões eliminou ou reduziu tarifas sobre uma parcela importante das exportações do agronegócio, movimento classificado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin como “avanço significativo”. Ainda assim, aproximadamente 20% das vendas brasileiras aos EUA continuam sujeitas a sobretaxas, embora essas mercadorias representem apenas uma fração — algo em torno de 4% — do total exportado pelo Brasil para o mundo.

É nesse ponto que se sustenta a declaração de Lula sobre o impacto “irrelevante” do tarifaço na economia como um todo. Na prática, o peso dos Estados Unidos como destino das exportações brasileiras vem diminuindo há anos, enquanto a China consolidou-se como principal parceiro comercial do país, respondendo por cerca de 28% das vendas externas brasileiras em 2024, à frente da União Europeia e dos próprios EUA. Em um cenário de demanda aquecida da Ásia por soja, carne, minério de ferro e celulose, boa parte da produção nacional encontrou alternativas em outros mercados, reduzindo o potencial de dano sistêmico das medidas norte-americanas.

No front doméstico, a leitura do Planalto combina diplomacia e conjuntura econômica. Dados recentes do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mostram recuo no grupo “Alimentação e bebidas” em diversos meses de 2025, ajudado pela safra agrícola, pela reoneração gradual de alguns itens e por políticas focadas em redução de custos logísticos. Essa trajetória contribuiu para aliviar a inflação sobre as famílias de baixa renda e reforça o argumento do governo de que as tarifas norte-americanas não se traduziram em choque de preços interno nem em desaceleração relevante da atividade econômica.

Isso não significa, porém, que o tarifaço tenha sido inofensivo para todos. Setores com presença consolidada no mercado norte-americano — como segmentos específicos de carne bovina, café e derivados de frutas — enfrentaram meses de incerteza, renegociação de contratos e necessidade de redirecionar cargas para outros destinos. Entidades de classe chegaram a alertar para o risco de perda de participação em nichos de alto valor agregado nos EUA, ainda que tenham celebrado a reversão parcial das tarifas como uma “vitória histórica” para o agronegócio brasileiro. Para analistas, o episódio expôs a vulnerabilidade de empresas altamente concentradas em um único mercado e reforçou a importância de estratégias de diversificação geográfica e de diferenciação de produtos.

Do ponto de vista geopolítico, o governo Lula tem procurado transformar a crise em argumento a favor de uma inserção internacional mais plural. Ao mesmo tempo em que manteve canais abertos com a administração norte-americana para negociar alívios tarifários, o Brasil intensificou agendas com China, União Europeia e parceiros do Sul Global, seja no âmbito do BRICS ampliado, seja em iniciativas bilaterais de infraestrutura, energia e transição ecológica. Para diplomatas ouvidos por veículos internacionais, o tarifaço funcionou como lembrete de que decisões unilaterais de grandes potências podem redesenhar, de uma hora para outra, o ambiente de negócios — e de que, por isso, ganhar resiliência passa por ampliar acordos, investir em valor agregado e fortalecer cadeias produtivas regionais.

Ao dizer que o impacto das tarifas foi “irrelevante”, Lula sinaliza confiança na capacidade de adaptação da economia brasileira e tenta reforçar uma narrativa de estabilidade ao fim de um ano marcado por choques externos. Para especialistas, porém, a principal lição do episódio não está na irrelevância dos números agregados, mas no alerta que fica: em um cenário global fragmentado e competitivo, depender de poucos compradores — ou de regras definidas unilateralmente — continuará sendo um risco. O desafio para 2026, avaliam economistas, será transformar a resiliência demonstrada em oportunidade: acelerar a diversificação de mercados, consolidar ganhos de competitividade e usar crises como essa para avançar em uma agenda de desenvolvimento menos vulnerável a sobressaltos geopolíticos.

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