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Com sotaque baiano e tecnologia chinesa, BYD transforma antigo polo da Ford em hub da mobilidade elétrica no Brasil

Fábrica em Camaçari marca maior operação da montadora chinesa fora da Ásia, reanima polo industrial baiano e inaugura nova fase da cooperação sino-brasileira no setor automotivo

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(Foto: Reprodução / Xinhua)

Da pista do aeroporto de Salvador até os portões do polo industrial de Camaçari, uma nova paisagem industrial começa a se impor. No lugar das linhas desativadas da Ford, ergue-se agora o complexo da BYD, montadora chinesa de veículos elétricos que aposta no Brasil como plataforma estratégica para sua expansão global. Com capacidade inicial de 150 mil carros por ano e plano de dobrar esse volume na segunda fase, a unidade baiana torna-se o principal polo de produção da marca fora da China e um símbolo da reindustrialização verde que o país tenta emplacar.

A planta de Camaçari foi estruturada em duas etapas. A primeira, já em operação, concentra a montagem final de veículos elétricos e híbridos a partir de conjuntos importados, enquanto avança a instalação de áreas de soldagem, pintura e estamparia. A segunda fase, prevista para entrar em funcionamento nos próximos anos, deve elevar a capacidade instalada a 300 mil unidades anuais, com maior conteúdo local e integração da cadeia de fornecedores brasileiros. De acordo com o governo da Bahia, o investimento anunciado supera R$ 5,5 bilhões, com expectativa de gerar até 20 mil empregos diretos e indiretos no entorno do polo industrial.

No chão de fábrica, o que se vê é um experimento de integração produtiva e cultural em tempo real. Equipes chinesas e brasileiras dividem linhas automatizadas, estações de inspeção e salas de controle de qualidade. A empresa criou programas internos de treinamento técnico, além de aulas de português para funcionários chineses e de mandarim para trabalhadores brasileiros, numa tentativa de reduzir barreiras de linguagem e acelerar a transferência de tecnologia. Para muitos empregados locais, que viveram o fechamento da antiga montadora, a chegada da BYD representa não apenas a recuperação do emprego, mas a entrada em um segmento de ponta da indústria automotiva.

A movimentação em Camaçari não acontece em um vácuo. Em Brasília, o governo federal colocou a descarbonização da frota e a neoindustrialização entre as prioridades da agenda econômica. O programa Mover, que redefine regras de emissões e cria incentivos para veículos de baixa emissão, e a retomada gradual do imposto de importação sobre elétricos e híbridos, formam o pano de fundo regulatório que estimula a migração da BYD do modelo puramente importador para a produção local em escala. Ao mesmo tempo, a presença da marca chinesa pressiona montadoras tradicionais a acelerarem seus próprios projetos de eletrificação, com impacto direto sobre preços, oferta de modelos e investimentos em P&D no país.

Do ponto de vista da relação bilateral, o complexo baiano aprofunda a transição da China de “compradora de commodities” para parceira industrial no Brasil. A mesma BYD que já atua em ônibus elétricos, baterias e projetos de transporte sobre trilhos na região Nordeste agora ancora um investimento de longa duração em produção automotiva, com possiblidade de, no futuro, exportar veículos montados em Camaçari para outros mercados da América Latina. Esse movimento dialoga com o esforço brasileiro de diversificar sua pauta de exportações e capturar mais valor agregado nas cadeias em que já é relevante – como energia, mineração e agronegócio –, agora com foco também na mobilidade sustentável.

Os próximos anos serão decisivos para medir o alcance dessa aposta. De um lado, BYD e autoridades brasileiras precisarão demonstrar que a rápida expansão da produção é compatível com padrões robustos de proteção trabalhista, segurança industrial e responsabilidade ambiental, num contexto em que a competição no setor automotivo se intensifica e a fiscalização tende a ser mais rigorosa. De outro, o desafio é aproveitar a presença da montadora chinesa para fortalecer a engenharia local, formar mão de obra especializada, desenvolver fornecedores nacionais e transformar o antigo polo da Ford em um verdadeiro laboratório de transição energética, onde tecnologia chinesa e criatividade brasileira se somem para redesenhar o futuro da indústria automotiva no país.

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