Você leciona o curso ‘Introdução à Ásia a partir da literatura’. No que os livros que você cita podem nos ajudar a entender o cenário sociopolítico-econômico asiático hoje?
Os livros que fazem parte do curso são ‘Orientalismo’, de Edward W. Said; ‘Pachinko’, de Min Jin Lee; ‘Onde vivem as monstras’, de Aoko Matsuda; e ‘Samarcanda’, de Amin Maalouf. Todos bem diferentes uns dos outros, mas com reflexões de coisas pouco conhecidas sobre a Ásia para o público brasileiro. São livros que mostram a mobilidade, as migrações que acontecem dentro do próprio continente ou até dentro dos próprios países, mostrando riquezas de características que, talvez, se não fosse a literatura, nunca pensaríamos sobre.
Da mesma forma, a literatura pode servir como um espaço para preencher lacunas que a História não conseguiu se aproximar, além de humanizá-las, pois, através de personagens fictícios ou não, compreendemos melhor como os grandes eventos mundiais afetam as vidas individuais e coletivas.
Poderia exemplificar?
Em ‘Pachinko’, aprendemos sobre a colonização japonesa nas Coreias e os processos de migração de um país para o outro – tema pouco falado pela “história oficial” japonesa e até desconhecida por muitos descendentes de japoneses no Brasil e como isso afeta as relações entre o Japão e os demais países da região, como China, Vietnã etc., além da Coreia. O colonialismo japonês no sudeste asiático durante a primeira metade do século 20 foi brutal e traumático, influenciando como esses países se relacionam até hoje. Sabendo disso, é surpreendente o acordo conjunto que Japão, China e Coreia do Sul fizeram para responder ao tarifaço de Donald Trump, mostrando como a questão econômica pode unir em alguma esfera países com relações não tão harmoniosas contra um “inimigo” em comum.
Em ‘Onde vivem as monstras’, aprendemos a riqueza da cultura japonesa sobre as crenças da vida após a morte, o papel de mitos e religiões e como existe uma diversidade linguística que passa despercebida em um país de dimensões territoriais pequenas. ‘Samarcanda’ enfatiza uma região completamente desconhecida dos brasileiros, inclusive na academia, que é a Ásia Central e suas histórias e civilizações antigas e riquíssimas ligadas à Rota da Seda (que hoje a China tenta reatualizar com o One Belt One Road), assim como uma parte da história do Irã, um país alvo de muitos estereótipos, que é muito desconhecido e mal interpretado.
Qual a sua percepção da visão dos brasileiros sobre os países asiáticos? O que mais nos aproxima e o que mais nos diferencia?
Acho que a visão do Brasil sobre a Ásia é contraditória e, claro, depende de qual país estamos falando. No geral, acho que ainda se tem uma visão bastante calcada no binarismo que vem da guerra fria, do capitalismo/”democracia” dos EUA-Europa ocidental, e do socialismo/”ditadura”, hoje na forma de Rússia e, em especial, China. Isso tanto da parte de partidos brasileiros de direita quanto da esquerda.
Parece que há uma dificuldade muito grande em tentar entender a complexidade desses locais para além da forma como vivem e veem o mundo. Os conceitos de “esquerda” e “direita”, ou quem é “amigo” ou “inimigo” do imperialismo estadunidense ou russo, em vários desses países, são diferentes do que é no Brasil e em outros países do chamado Ocidente. Há também uma homogeneização em relação a muitos desses países, como a confusão que se tem comumente entre China, Japão e Coreias.
Como contraponto, há uma visão exotizante também dessas regiões, de um “Oriente espiritualizado”, moral e espiritualmente superior ao “Ocidente”, com suas roupas, cenários, objetos e gestos “exóticos”. Dentro dessa chave do “exótico”, há também uma hiperssexualização, tanto de corpos femininos quanto masculinos, de pessoas vindas dessa região, inclusive de seus descendentes na diáspora. Ao mesmo tempo, o softpower de alguns desses países, como Japão, China e Coreia do Sul, traz uma visão mais positiva e até idealizada sobre esses países, aumentando o interesse do contato dos brasileiros com essas outras culturas, seja por meio de aprendizagem da língua, seja por meio de viagens, estudos acadêmicos e consumo de produtos culturais.
E a visão contrária?
Depende muito do lugar de onde estamos falando, afinal é o maior continente do mundo. No Japão, devido à imigração tanto de japoneses para o Brasil quanto de descendentes brasileiros de japoneses para o Japão, o nosso país é mais conhecido por lá, sendo que esses descendentes são alvo de representações estereotipadas negativas.
No entanto, o que posso dizer, a partir de experiência própria, é que as populações desses países, no geral (estou falando aqui de pessoas comuns, com quem se conversa na rua), sabem muito pouco sobre o Brasil, se é que sabem que o país existe. O Brasil ainda não alcançou uma relevância internacional no imaginário das populações asiáticas. Não existe uma “ideia” de Brasil consolidada, como tem de “Estados Unidos”, “Europa”, “África”, “Índia”, “Austrália” etc. O máximo são menções a futebol, Carnaval e “aquela estátua em cima de um morro de um homem com braços abertos”, no Rio. Talvez seja a distância tanto física quanto cultural, não sei dizer. O que sei é que ainda há muito a fazer para que o Brasil tenha uma presença mais consolidada no imaginário das populações asiáticas.
O que profissionais que lidam com comunicação, marketing e negócios precisam estar mais atentos nas relações com o mundo asiático cada vez mais próximo do Ocidente?
A Ásia é um continente pouco conhecido e mal interpretado aqui no Brasil, em especial pela forma como recebemos estereótipos que circulam pela imprensa e redes sociais. Culturalmente, ainda somos muito influenciados por Estados Unidos e Europa, então acabamos por consumir de forma direta e indireta, voluntária e involuntária, a visão que essas regiões têm da Ásia.
O primeiro passo é entender que os países asiáticos não são uma grande massa homogênea em que todos parecem ser iguais. Cada país tem suas peculiaridades, e dentro de cada país existe uma infinidade ainda mais complexa que às vezes só vamos entrar em contato quando pisamos os pés lá. É entender que China, Índia, Paquistão, Vietnã, Tailândia e Mianmar, entre vários outros países, são multiculturais, onde se falam várias línguas e existem várias outras etnias; que as religiões praticadas nessas regiões são diferentes do que conhecemos, assim como a forma de se estar no mundo. Importante perceber que nós não somos o centro do mundo, ou que existem outros centros do mundo por aí.
Além disso, estamos testemunhando a mudança do eixo do poder global, de Europa e Estados Unidos, para o sudeste e sul asiático. Vejo isso como uma oportunidade.
Como as escolas e as universidades têm contribuído (ou não) para nos dar uma visão melhor da história asiática?
O cenário dos estudos acadêmicos envolvendo Ásia é muito incipiente no Brasil. O ensino de história, tanto nas escolas quanto nas universidades, ainda é bastante eurocêntrico, assim como o mercado de livros (há uma falta de traduções para o português de títulos importantes e trabalhos originais escritos no Brasil são escassos, ainda que esteja crescendo; e é só ver como os livros didáticos abordam pouco a história da região).
No que se refere especificamente à História, existem apenas duas universidades que oferecem cursos obrigatórios de História da Ásia: a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), com campus em Guarulhos (SP), e a Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), com campus em Foz do Iguaçu (PR). Em outras universidades, esse curso pode ser oferecido como disciplina optativa, quando é oferecido. Ou seja, não há uma área acadêmica oficialmente formada como História da Ásia.
Além do que, é uma disciplina que aborda todo um continente com uma história muito antiga e com uma infinita diversidade de povos e culturas. Assim, essas disciplinas acabam apenas pincelando alguns aspectos da história desses países, não há muito tempo para aprofundá-la. Mesmo assim, é melhor isso do que nada. Mas ainda há muito para se fazer.
O streaming foi tomado por K-dramas, séries chinesas e japonesas e o Brasil virou um local de grande interesse para os chamados idols e bandas coreanas. No que isso pode nos ajudar a entender melhor a cultura asiática e nos iludir sobre uma realidade produzida para o entretenimento?
Vejo com bons olhos o consumo de produtos culturais feitos nesses países justamente porque são os próprios asiáticos contando histórias sobre si mesmos e produzindo a própria cultura de massa. Claro que essa produção também deve ser problematizada, mas o interessante é entender como eles mesmos se veem, como criam a própria narrativa. Aprende-se demais com isso, além de possibilitar uma maior variedade de olhares, pontos de vista e narrativas diferentes das que estamos acostumados a consumir.
O problema é quando se acredita que aquilo que está sendo consumido é a realidade nua e crua. E daí cai-se no mesmo problema da exotização daqueles que são diferentes de nós: a romantização ou idealização de uma realidade, como se tudo que determinado país ou determinado cultura produzisse fosse bom em si mesmo. Romantizar povos e culturas é outra forma de desumanizá-los.
Você mencionaria alguma autora ou autor brasileiro que tenha grande influência na cultura asiática?
A literatura brasileira ainda é pouco conhecida não só na Ásia, mas globalmente de forma geral. A barreira da língua portuguesa é ainda uma questão. Mesmo assim, o autor brasileiro mais lido, traduzido e pirateado nessa região é Paulo Coelho. Por todos os países asiáticos pelos quais passei havia desde os lançamentos até os livros mais antigos dele. Jorge Amado também é um nome conhecido.
Mais recentemente, seguindo a tendência mundial, Clarice Lispector é uma autora que está ganhando traduções para línguas como árabe (pela tradutora Safa Jubran, professora da USP), chinês e coreano (através da escritora Bae Su-Ah, autora de ‘Sukiyaki de domingo’ e ‘Noite e dia desconhecidos’). Ainda há muito espaço para muitas obras clássicas e contemporâneas serem traduzidas para os vários idiomas do continente.
Qual autor asiático é indispensável para se começar uma bibliografia sobre a Ásia?
‘Orientalismo’, do crítico literário palestino-americano Edward W. Said. Originalmente foi publicado em 1978, mas só chegou ao Brasil nos anos 1990. É um título essencial para entender como o nosso imaginário não só sobre árabes, muçulmanos e os chamados “orientais” foi construído, mas também como qualquer grupo colonizado e oprimido foi homogeneizado.
As mesmas estruturas desse pensamento servem tanto para falar do continente africano e suas populações e as populações indígenas e autóctones das Américas e da Oceania quanto da Ásia. Outro livro muito importante de Said é ‘Cultural e imperialismo’, que acho metodologicamente mais bem resolvido que ‘Orientalismo’.
Outros autores que trazem reflexões importantes sobre a Ásia e o mundo de hoje são o historiador indiano Sanjay Subrahmanyam (ainda não publicado no Brasil) e o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Na literatura, é possível começar por onde quiser, mas sugiro começar pela sul-coreana Han Kang, não só porque foi ganhadora do Nobel de Literatura ano passado, mas porque ela tem livros muito interessantes, instigantes e que trazem aspectos diversos da sociedade sul-coreana.
