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China propõe nova ordem financeira global baseada em múltiplas moedas

Com críticas à hegemonia do dólar, governo chinês aposta no fortalecimento do yuan e uso de tecnologias como o yuan digital

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(Foto: Reprodução)

A China voltou a defender uma nova arquitetura financeira internacional, menos dependente do dólar e mais aberta ao uso de múltiplas moedas. O posicionamento foi apresentado pelo presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, durante o Fórum Lujiazui, o principal evento de política financeira do país, realizado em Xangai nesta quarta-feira (12).

Sem citar diretamente os Estados Unidos, Pan fez críticas contundentes à centralidade do dólar na economia global, alertando que a concentração de poder financeiro em uma única moeda pode gerar instabilidade sistêmica. “Problemas fiscais e regulatórios no país emissor da moeda dominante podem transbordar para o mundo na forma de riscos financeiros e evoluir até para uma crise internacional”, afirmou.

O discurso ocorre em um momento de enfraquecimento do dólar, que já perdeu cerca de 11% em relação ao euro só neste ano. Ao mesmo tempo, a China mantém o yuan atrelado à moeda americana, o que vem impulsionando suas exportações, especialmente para a Europa.

Brasil e o novo cenário monetário

Para o Brasil, que tem a China como seu maior parceiro comercial, o avanço do yuan em operações internacionais pode representar novas oportunidades de diversificação nas transações financeiras e comerciais. Já há iniciativas em curso para negociar diretamente em moeda chinesa, reduzindo a exposição cambial ao dólar, principalmente em setores como soja, carne e minério de ferro.

Essa mudança, se consolidada, também pode beneficiar acordos com outros países do Sul Global — um movimento que ganha força dentro do BRICS, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Ao estimular o uso do yuan em acordos bilaterais, Pequim busca uma espécie de regionalização da sua moeda, e não necessariamente sua globalização nos moldes ocidentais.

“É uma estratégia de inserção do yuan no comércio, nos pagamentos e nas relações entre Estados, especialmente no Sul Global”, explica Dan Wang, economista do Eurasia Group, com sede em Cingapura.

Tecnologia como aliada do novo sistema

Pan Gongsheng também destacou o papel das tecnologias emergentes para o avanço dessa nova ordem monetária. Uma das apostas é o yuan digital, desenvolvido para pagamentos transfronteiriços mais rápidos e menos dependentes de intermediários tradicionais. Essa inovação pode se tornar um diferencial importante em blocos como o BRICS ou mesmo em negociações com países sob sanções, como Rússia e Irã.

Além disso, o líder do Partido Comunista em Xangai, Chen Jining, reforçou no mesmo evento a importância do setor financeiro no apoio à inovação tecnológica. O governo chinês tem canalizado recursos para indústrias estratégicas, como carros elétricos e energia solar, em uma tentativa de reduzir a dependência do setor imobiliário, abalado por uma bolha que comprometeu a renda da classe média.

Yuan mais forte, mas com desafios

Apesar dos avanços, o yuan ainda enfrenta limitações para se tornar uma moeda dominante fora da China. O rígido controle estatal sobre o fluxo de capitais, combinado ao retorno quase automático dos yuans enviados ao exterior — na forma de pagamento de dívidas ou novas compras —, impede sua consolidação como reserva global.

Ainda assim, a proposta de um sistema mais equilibrado, com múltiplas moedas e menor influência do dólar, tem ganhado apoio em fóruns internacionais, especialmente entre países emergentes. A possível transição para esse novo modelo pode redesenhar as regras do jogo global nas próximas décadas — e o Brasil, como parceiro estratégico da China, terá um papel importante nesse processo.

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